
Título: O Amor Nunca Foi Para Mim
—
O amor é uma mentira. Pelo menos, para mim é.
Eu nunca acreditei nele. Na minha família, os Machava, a tradição é a única coisa que importa. O meu irmão gémeo, Tomás, lembra-me a regra constantemente: no nosso mundo, uma mulher tem até aos vinte e cinco anos para que o irmão mais velho lhe escolha um marido. Se ele não o fizer? Ela fica solteira para sempre.
Tomás é o novo Rei do submundo. Ele escolheu essa vida. Eu nunca a quis.
Mesmo assim, aqui estou. Tenho vinte e quatro anos, sentada sozinha num restaurante chique em Maputo. O meu irmão arranjou-me um encontro com um “homem decente”. Já passou uma hora. Ele nunca apareceu.
Dou um gole no meu vinho e olho para a marca de batom vermelho na taça. O meu vestido preto está perfeito. Os meus caracóis estão no ponto. E estou aqui sentada como uma tola.
Penso no Tomás e na mulher dele, a Lúcia. Eles são felizes. Têm um filho e outro a caminho. Eles encontraram amor. Eu começo a achar que o amor simplesmente me passou ao lado.
Finalmente, desisto e ligo ao meu irmão.
“Alô,” responde o Tomás, com uma voz ocupada.
“Olá, irmão,” digo, revirando os olhos. “O teu amigo deu-me um bolo. Estou aqui há uma hora.”
Tomás rosna. “Vou matá-lo.”
Oiço a Lúcia, a mulher dele, ao fundo. “Tomás, nada de matanças hoje à noite!”
Eu rio-me. “Obrigada, Lúcia. És a única que o mantém são.”
“Então, porque é que estás a ligar?” pergunta o Tomás.
Suspiro, recostando-me na cadeira. “Bebi vinho demais para guiar. Podes vir buscar-me?”
“Não posso,” diz ele. “A Lúcia e eu estamos a jantar. Mas tenho alguém por perto que pode.”
Franzo a testa. “Quem?”
Há uma pausa longa. Consigo ouvir o sorriso presunçoso na voz dele.
“Mateus Cossa.”
O meu estômago dá um salto. O melhor amigo do meu irmão. O único homem que passei anos a tentar evitar.
“Não! Absolutamente não,” retorqui, seca. “Não vou entrar num carro com ele.”
“É ele ou vais a pé para casa naqueles saltos. Ele chega aí em cinco minutos. Tchau.”
A linha corta.
O meu coração começa a acelerar. Não é do vinho—é a ideia de estar perto dele. O Mateus é perigoso. É proibido. E é o único homem que alguma vez me fez sentir que o amor podia ser real.
***
O som do meu telemóvel a bater na mesa ecoou mais alto do que devia. O meu pulso acelerou—não por causa do vinho, mas porque sabia que ele estava a caminho.
**Mateus Cossa.**
O melhor amigo do meu irmão.
A minha maior tentação… e o meu inimigo.
O homem que eu passei anos a evitar. Aquele com quem jurei nunca mais ficar sozinha.
Disse a mim mesma que não me importava. Podia sair, chamar um táxi, ir para casa—mas o meu corpo recusou-se a mexer. As minhas pernas pareciam coladas à cadeira, a minha respiração presa no peito, à espera.
De repente, um SUV preto e elegante encosta ao passeio. A porta abre.
Então ouvi—o ritmo firme de passos no chão polido do restaurante. O estômago revirou-se. O meu coração sabia que era ele antes de os meus olhos se erguerem.
O Mateus estava à entrada, alto, imponente, em cada centímetro o homem que podia dominar uma sala sem falar. E, no entanto, os seus olhos encontraram-me instantaneamente, pregando-me no lugar.
“Nunca mudas, Eliana,” disse ele, a voz suave, com um traço de perigo. “Sempre teimosa. Sempre a fingir.”
Endireitei-me, recusando deixá-lo ver o quanto a sua voz me abalou. “Eu não estava à tua espera.”
Ele sorriu com arrogância, sentando-se na cadeira à minha frente como se o lugar lhe pertencesse. “O teu irmão pensava o contrário. Disse que precisavas de boleia.”
“Chamo um táxi,” disse eu, seca, esticando a mão para o telemóvel.
Antes de conseguir desbloqueá-lo, a mão dele moveu-se pela mesa e agarrou o meu pulso. Um calor percorreu o meu braço—firme, deliberado, inabalável.
“Não te incomodes,” murmurou, o polegar a roçar a minha pele. “Nós os dois sabemos que vais sair daqui comigo.”
Puxei a mão para trás, mas já era tarde de mais. O meu corpo traiu-me; o meu pulso batia como se me tivessem apanhado a fazer algo proibido.
“Achas-te irresistível, não achas?” perguntei, tentando soar afiada.
O sorriso arrogante dele aprofundou-se, os olhos a brilhar com um perigoso divertimento. “Eu não acho, Eliana. Eu sei.”
O silêncio entre nós engrossou, carregado com algo que nenhum de nós se atrevia a dizer em voz alta. Odiava-o por se infiltrar sob a minha pele. Odiava que um único olhar pudesse derrubar cada muro que eu tinha construído.
Pior ainda, odiava que parte de mim quisesse deixar aqueles muros caírem.
Quando o empregado voltou, quebrando o momento, abanei a cabeça, desesperada por clareza. O Mateus pediu uísque, calmo como se nada o pudesse perturbar.
Depois de o empregado se ir embora, o olhar dele nunca se desviou do meu. “Porque é que lutas tanto, Eliana? Porque é que estás sempre a chatear-me?”
Aquela única frase cortou mais fundo do que devia.
Levantei-me abruptamente, agarrando a minha bolsa. “Não tenho de ficar aqui sentada a ouvir isto.”
Mas quando tentei passar por ele, ele também se levantou, pairando sobre mim. A presença dele enjaulou-me sem me tocar.
“Não vais sair daqui sozinha. Vens comigo.”
O tom dele não deixava margem para discussão. Contra todos os avisos na minha cabeça, deixei que ele me guiasse para fora do restaurante.
Lá fora, o ar fresco da noite de Maputo atingiu a minha pele, mas não me acalmou. O Mateus caminhava ao meu lado, a mão dele a roçar na minha—perto demais, perigoso demais.
Ele abriu a porta do carro preto e elegante com uma facilidade prática. Hesitei, o coração a acelerar. Entrar naquele carro pareceu como entrar em algo que não conseguiria desfazer.
Então a voz dele veio, baixa, suave, persuasiva:
“Eliana, para de fingir. Tens fugido de mim há anos. Hoje, isso acaba.”
Deslizei para o banco antes de o meu cérebro me conseguir parar. Ele fechou a porta atrás de mim, selando o meu destino.
Dentro do carro, o ar ficou mais pesado, carregado. As mãos dele agarravam o volante, as veias a sobressair contra a pele, o maxilar apertado. Os olhos deslizaram na minha direção—escuros, impenetráveis, mantendo-me refém sem uma palavra.
Eu não disse nada. Fiquei em silêncio, à espera que ele falasse novamente. Ele não pôs o carro a andar. Em vez disso, inclinou-se, o peito a roçar no meu braço, e esticou o braço para o meu cinto de segurança. O cheiro dele—fumo e madeira cara—encheu-me os pulmões, fazendo a minha cabeça andar à roda. Não fechou o cinto. Ficou apenas ali, o rosto a centímetros do meu, os olhos escuros a percorrerem a linha da minha garganta.
Perguntei a mim mesma que jogada ele faria a seguir—mas quando a mão dele deslizou do cinto para a minha coxa, percebi que não estava preparada para nenhuma delas.
***
A viagem toda para casa foi irritante como o diabo.
Não porque o Mateus falasse—ele não disse uma única palavra. Era pior que isso. O silêncio dele encheu o carro como fumo, envolvendo-me, sufocando. Quanto mais perto ele estava, mais consciente eu ficava dele. Da sua colónia. Do calor do seu corpo. Do seu controlo silencioso.
Cada segundo em que o braço dele descansava tão perto do meu era como eletricidade a percorrer a minha pele. A minha raiva devia tê-la afogado—mas em vez disso, queimava mais forte.
Conhecia o Mateus há cerca de quatro anos. O Tomás conhecia-o há mais tempo, talvez seis. Mas o Tomás mantinha-o longe de mim, como se soubesse exatamente que tipo de problema era o seu melhor amigo. O tipo de homem que conseguia arruinar uma rapariga sem sequer tentar.
O Mateus era o *bad boy* da vida real. Perigoso, imprevisível, e no entanto… todos sussurravam sobre o outro lado dele. Que tinha um coração de ouro enterrado sob os seus bordos afiados. Eu nunca acreditei nisso. Nem por um segundo.
E às vezes, desejava que o Tomás nunca o tivesse deixado chegar perto de mim. Porque agora, o nosso jogo era simples: ele chateia-me, eu chateio-o. Um ciclo de que não conseguíamos escapar. Um fogo que nenhum de nós conseguia apagar.
Quando finalmente entrámos na longa entrada da propriedade dos Machava, o meu peito estava apertado com uma tensão que não conseguia nomear. Guardas de segurança patrulhavam os portões, as suas silhuetas cortando o brilho dos holofotes. Casa devia parecer um lugar seguro. Em vez disso, parecia entrar noutro tipo de armadilha.
Desapertei o cinto rapidamente, desesperada por escapar, mas quando olhei para o Mateus, congelei. As mãos dele agarravam o volante com tanta força que as veias saltavam. A visão enviou um arrepio inesperado através de mim. Odiava-me por pensar nisso—veias sempre pareciam sexy num homem. Mas não neste homem. Não no Mateus Cossa.
“Obrigada,” murmurei, esticando a mão para a maçaneta da porta. Mas antes de conseguir puxá-la, uma mão fechou-se em torno do meu pulso. Firme. Quente. Inescapável.
“Espera,” disse ele, a voz baixa mas firme.
Fiquei imóvel, presa, a olhar para o sítio onde a pele dele tocava na minha. Lentamente, quase contra a minha vontade, o meu olhar ergueu-se para os olhos dele. E esse foi o meu erro. Porque no momento em que olhei para ele, não consegui desviar o olhar. Os olhos dele puxaram-me como a gravidade, e senti-me a afogar neles, esquecendo todas as razões pelas quais devia odiá-lo.
“Se alguma vez precisares que alguém venha buscar-te,” disse ele calmamente, quase suave de mais para o Mateus que eu conhecia, “liga-me.”
Soltei um riso desdenhoso, revirando os olhos para esconder o modo como o meu estômago deu uma volta. “Não fiques sensível agora, Mateus.”
O aperto dele apertou, puxando-me para mais perto. De repente, o meu corpo estava inclinado na direção dele, os nossos rostos a apenas centímetros de distância. A respiração dele roçou os meus lábios, quente e enlouquecedora. Por um momento de batimento de coração imprudente, perguntei a mim mesma como seria se eu me inclinasse para a frente. Se eu deixasse a boca dele reclamar a minha. Se parasse de lutar contra ele e cedesse.
Mas então o pensamento assustou-me o suficiente para o afastar.
“Falo a sério, Eliana. Liga-me,” insistiu ele, o tom afiado desta vez, a comandar.
Engoli em seco, forçando um sorriso presunçoso para cobrir o modo como os meus lábios tremiam. “E agora, também queres um beijo de despedida?” provoquei, tocando-lhe no nariz com o dedo só para provar que ainda conseguia jogar o jogo.
O maxilar dele cerrou-se, mas ele soltou-me, os olhos nunca se desviando dos meus. “Apenas liga.”
“Está bem,” murmurei, escapando do seu aperto e abrindo a porta. O ar da noite atingiu a minha pele como um aviso.
“Boa noite, Eliana,” chamou ele atrás de mim enquanto eu caminhava em direção ao alpendre. Levantei uma mão sem me virar. “Boa noite.”
O motor do carro rugiu atrás de mim, mas antes de se afastar, a voz dele ressoou uma última vez, alto o suficiente para que cada guarda ouvisse: “Belo rabo!”
Conge-lei, virando-me no calcanhar, as faces a arder enquanto o carro dele desaparecia pela entrada abaixo. Os meus guardas mudaram-se desconfortavelmente, alguns a tentar esconder os sorrisos.
A fúria subiu-me ao peito. Mas por baixo dela, algo pior persistia. Uma faísca que eu não queria.
Uma pergunta que não conseguia silenciar.
Fiquei ali parada, a observar o brilho vermelho das luzes traseiras do carro desaparecer na noite de Maputo. O meu coração ainda batia com força, e não era por causa do grito arrogante dele. Era porque, por uma fracção de segundo naquele carro, eu não tinha querido fugir. Tinha querido ficar.
Olhei para o meu pulso, ainda sentindo o calor fantasma onde os dedos dele me tinham agarrado. Ele disse-me para lhe ligar. Disse-me que falava a sério. E pela primeira vez em quatro anos, o ‘jogo’ que jogávamos pareceu que ia tornar-se em algo muito mais perigoso.
Se eu realmente pegar naquele telefone e lhe ligar… estarei finalmente a encontrar o meu protetor, ou estarei a convidar o diabo diretamente para dentro do meu coração?

One response to “PERIGOSAMENTE SEU:EPISÓDIO 1”
[…] “LEIA O EPISÓDIO 1 AQUI” […]