
Maria tinha dezasseis anos. A maioria das meninas da sua idade ainda estava na escola, a rir com as amigas, a sonhar com exames ou com o primeiro amor. Maria já era casada. O marido, cinco anos mais velho, tinha sido escolhido pelo pai e aprovado pelos mais velhos da família. Ninguém lhe perguntou o que ela queria.
Disseram-lhe que o casamento significava respeito, segurança e honra. Mas essa segurança tinha um preço: a sua liberdade, a sua voz e a infância que mal tinha começado a viver. O medo que carregava era simples, mas pesado: não sabia se estava pronta para ser esposa, mãe ou sequer alguém capaz de amar. E agora esperavam que tivesse filhos — imediatamente.
À noite, debaixo da rede fina, ouvia os sussurros da mãe pelas paredes e perguntava-se se alguém podia ver o seu medo. Pensava nas meninas com quem cresceu, nas amigas que desapareceram da escola para se tornarem esposas, muitas com o primeiro filho antes dos dezoito anos. Ela não queria aquela vida, mas a tradição era mais forte do que os seus desejos.
Numa dessas noites, a mãe voltou ao assunto. “Está na hora, Maria. Agora és esposa. Um lar forte começa com filhos,” disse. Maria sentiu o peito apertar. Queria falar, dizer que não estava pronta, mas as palavras ficaram presas na garganta.
Sabia que tinha escolhas, embora nenhuma parecesse realmente livre. Podia obedecer, começar uma família e manter a paz com os seus, mas perderia a liberdade e qualquer esperança de voltar à escola. Podia resistir, recusar ter um filho agora, tentar manter algum controlo sobre a sua vida, mas isso poderia trazer raiva, fofocas ou castigo. Ou podia fugir, escapar para ganhar liberdade, mas arriscar tudo: segurança, a vergonha da família e os perigos desconhecidos que a aguardavam sozinha.
Maria permanecia acordada, a contemplar todos os caminhos possíveis. Imaginava-se a submeter-se completamente — agradar a todos, tornar-se a esposa e mãe perfeita, mas a sacrificar os seus sonhos e a sua voz. Imaginava-se a dizer não, a manter-se firme, a proteger o corpo e as suas escolhas, mas a ouvir sussurros pelas costas e a sentir o peso da desilusão da família. E imaginava-se a fugir silenciosamente para a escuridão, deixando todos para trás, enfrentando os perigos sozinha só para sentir algum controlo sobre a própria vida.
E tu, o que farias se fosses a Maria? Obedecias? Resistias? Fugias? Pára por um momento e imagina-te nos seus sapatos.
A noite estava escura e silenciosa. Maria saiu devagar do quarto, o coração a bater acelerado, o pequeno embrulho de roupas na mão. Cada passo parecia pesado, mas cada passo era em direção a algo que ainda não conseguia nomear. Movia-se silenciosa pela aldeia, sombras a alongarem-se pelos caminhos que conhecia desde sempre, a perguntar-se se a liberdade traria alegria, medo ou ambos.
Pensava nos perigos que poderiam estar à espera — estranhos na estrada, pessoas que a julgariam, a incerteza de encontrar um lugar para dormir. Pensava na família, que acordaria de manhã e a encontraria desaparecida, provavelmente zangada, provavelmente assustada, provavelmente envergonhada. E pensava em si mesma, sem saber se teria coragem suficiente para sobreviver à escolha que fizera.
A luz da lua refletia no caminho à frente, tornando-o ao mesmo tempo curto e interminável. O coração de Maria acelerava. Ouviu a risada distante da irmã mais nova do dia anterior, lembrando-a que a vida que deixava para trás nunca mais seria a mesma.
Ao longe, um cão latiu. O vento trazia o cheiro de fogueiras e terra molhada. Maria parou por um momento, segurou a respiração, escutando. Cada som, cada sombra, parecia um teste — cada segundo podia mudar tudo.
Deu mais um passo em frente. Um passo pequeno, depois outro, em direção a um futuro desconhecido. E percebeu, lá no fundo, que fosse o que fosse que a esperava, não podia voltar atrás.
Mas o que exatamente a esperava? Encontraria segurança? Sobreviveria à noite e às escolhas que tinha feito? A liberdade seria um alívio, ou algo mais pesado do que a vida que deixava para trás?
As respostas estavam ali na escuridão, e Maria tinha de continuar a caminhar para as descobrir.
O que a espera na escuridão? Encontrará segurança, ou a fuga colocá-la-á em perigo ainda maior?

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