
“Chamadas de Pânico”
O fantasma do toque do Mateus ainda queimava no meu pulso, uma marca da noite passada que nenhum vinho conseguia tirar. Estava sentada na sala da minha mãe. O som do mar lá fora parecia uma zombaria. Cada vez que fechava os olhos, via-o—sua mão firme, veias saltando, a voz dele sussurrando, “Liga para mim.”
“Estás calada hoje, Eliana,” disse meu irmão.
Andile observava-me, atento a cada gesto, sentado com a esposa, Lucia. A mão dele descansava na barriga dela—a imagem perfeita do amor que eu não tinha.
Encolhi os ombros. “Só estou cansada.”
Minha mãe, Maria, levantou os olhos do colo. O sorriso dela era apertado, forçado. Desde que meu pai se foi, trocou vestidos caros por suéteres velhos e risos por silêncio. Queria que ela quebrasse. Conseguiríamos lidar com isso.
“Tomas,” disse, inclinando a cabeça para ela.
Ele pigarreou. “Mãe, como é que realmente estás?”
“Estou bem, Tomas,” disse ela, mas os olhos logo me buscaram, curiosos, afiados. “E tu, Eliana? Há alguém especial que queres contar?”
Fiquei paralisada. “Não,” disse rápido demais. “Não estou interessada em namorar. Nem casar.”
“O que há de errado com casar?” Tomas perguntou, sério.
“Gosto da minha liberdade.”
“Podes ter liberdade com a pessoa certa,” disse ele, apertando o ombro de Lucia.
Lucia riu baixinho. “Dizes isso, Tomas, mas chamaste-me três vezes enquanto eu só ia comprar sorvete.”
O ar parecia sufocante. Queria escapar, mas o meu irmão só piorava.
“O Mateus esteve bem a buscar-te ontem à noite?” Tomas perguntou, calmo, mas com olhar afiado.
Um calor subiu pelo meu corpo. Que corpo! A voz dele ecoava na minha memória, junto com o sorriso dos guardas. “Ele esteve… bem,” disse, cruzando os braços. “Eu teria preferido tu.”
Tomas bufou. “Sabes que não podia. Ele aceitou imediatamente.”
Fiquei em silêncio. Mas os olhos da Maria estavam arregalados, um sorriso lento e ameaçador no rosto.
Tomas enrijeceu. “O quê?”
“Nada,” disse, coração acelerado.
“Ela está a pensar no Mateus Cossa,” disse Maria, leve mas firme.
“Não. Absolutamente não, Eliana. Ele não é bom para ti,” disse Tomas, levantando-se.
“Eu não estou com ele! Ela é que está a imaginar coisas!” eu disse.
“Se ele não é bom, então porque tem sido teu amigo todos estes anos?” Lucia perguntou suavemente.
Tomas esfregou o rosto, frustrado. “Ele é um bom amigo. Leal. Mas não é o tipo de homem que tu queres para marido. Ele é… perigoso.”
O maxilar dele apertou. “Arruinou a vida de um homem uma vez. Não pestanejou. Vi-o afastar-se como se nada fosse.”
Arrepiei-me. Tomas não exagera. Se ele tem medo, é sério.
Então uma voz profunda quebrou a tensão.
“Essa é uma pergunta que eu também queria ouvir.”
Virámos. Mateus encostava-se à porta, calmo, confiante, como se fosse dono do lugar. Os olhos dele fixaram-se em mim. Ele ouviu tudo.
“Mateus. O que estás a fazer aqui?” Tomas perguntou, rígido.
Mateus ignorou-o. O sorriso dele dominava a sala. “A Maria convidou-me,” disse, baixo, só para mim. “Disse que a filha podia precisar de boleia. Não posso dizer não à tua mãe… ou perder a oportunidade de te ver.”
O quarto parecia menor. Cada batida do meu coração soava alto com ele por perto.
“Mateus, a boleia que te pedi para dar à Eliana… foi cancelada. Mas porque não ficares para jantar?” disse Maria, calma mas firme.
Ele ergueu uma sobrancelha. “Jantar, senhora?”
“Sim,” sorriu, apontando para a mesa. As empregadas tinham posto pão, pratos aromáticos e sobremesas. “Seria falta de educação não ficares.”
Sentei-me, observando os olhos de Mateus brilharem para mim—curiosos, provocantes, vivos.
O jantar estava cheio de risos, piadas e pequenos provocamentos de Andile e Lucia. O charme de Mateus era natural. Cada olhar que trocávamos acendia algo que eu tinha de resistir.
Senti um arrepio. O que poderia acontecer hoje à noite? O meu peito aquecia. Um olhar, uma palavra, e tudo podia mudar.
Uma semana depois
Estava no pátio da casa de Lucia e Andile. O vento soprava meu cabelo pelos ombros. O sol refletia na mesa de vidro.
Lucia sentou-se à minha frente, a pele a brilhar com o glow da gravidez. Eu invejava isso.
Bebi o chá, basicamente ali só para a ver. Companhia. Tédio.
“Então, como está o bebé?” perguntei.
“Seis meses hoje,” sorriu, mão na barriga.
Ri-me. “Parece que foi ontem que implorei ao Andile para te trazer de volta.”
Ela riu. “Está bem. Ainda não escolhemos nome.”
“Vão escolher,” disse.
“E tu? Como vão as coisas? Não temos tido uma conversa de meninas há séculos.”
“Nada de especial. Tento começar o meu negócio de moda. Só um vestido feito até agora.”
Os olhos dela estudavam-me. Senti-me estranha.
“Porque estás a olhar assim para mim?”
“Há outra pessoa na tua mente, não é?” provocou.
“Não? Porquê?”
“Estás diferente desde que o Mateus te veio buscar. Beijaram-se ou quê?”
Fiz um sinal de negativo com o polegar. “Não. Ele é nojento—”
Continuei. “Horrível, pénis pequeno, horrível—”
Os olhos dela arregalaram. “Eliana!”
Bati as mãos nas pernas. “Jesus! Posso acabar?”
Um toque no ombro. Mateus. Braços cruzados, sorriso no rosto. Merda.
Cabelo negro ondulado, olhos castanhos penetrantes, músculos visíveis pela camisa aberta.
“Então, estavas a dizer sobre o meu pénis pequeno?”
Lucia tapou a boca, tentando não rir.
“O que estás a fazer aqui?” perguntei.
“Não é da tua conta. Tive uma reunião com o teu irmão,” disse ele.
“E não me disseste?”
“Esqueci-me,” disse ela, mãos levantadas.
“Ele não veio para me ver. Veio para me irritar,” disse eu.
Os nossos olhos travaram. Os dele cheios de poder, os meus de raiva. Olhei para os lábios dele e arrepio-me.
“E se eu tivesse vindo para te ver? E depois, princesa?”
Aproximei-me. “Não mintas. Todos sabemos que és mentiroso.”
Ele riu. “Certo. E tu? Mentiste sobre o meu tamanho.”
“Não menti.”
“E se estiveres enganada? Talvez seja enorme.”
Neguei. “Porque é que falamos sempre sobre o teu pénis?”
“Foste tu que trouxeste o assunto,” disse ele, sorrindo.
Merda. Ele tinha razão.
Dei um passo à frente. “E que queres provar?”
“Que estás enganada sobre mim,” disse, mordendo o lábio.
Lucia levantou as mãos. “Chega! Mateus, volta para cima.”
Ele rosnou para mim, depois saiu. Mas na porta, virou-se e os olhos dele encontraram os meus novamente.
Algo não dito passou entre nós. O meu coração acelerou, a respiração falhou. Senti o puxão que ignorava há dias.
Lucia bebeu o chá. “O que foi isso?”
“Só uma conversa normal com o amigo irritante do meu irmão,” disse eu.
Ela abanou a cabeça. “Sim… sobre o pénis dele?!”
Revirei os olhos. “Estamos a brincar.”
“Claro… como se não sentisses a tensão.”
Mateus apareceu novamente na porta. Provocador. Quente. Perigoso.
“Ainda a pensar em mim, princesa?”
Sussurrei, coração disparado, “Talvez sim.”
O ar estava elétrico, cheio de tensão, desejo e promessas que nenhum de nós podia parar. Tudo pendia no ar, não resolvido, inevitável.
Já tinham passado três meses. Tentava finalmente deixar a confusão familiar e focar nos meus designs de moda para um cliente.
Então o meu telemóvel vibrou.
Bufei. O nome do Tomas apareceu no ecrã. “Espero que seja bom,” murmurei, atendendo. “Não é um bom momento, Tomas.”
A voz dele veio tensa, a tremer de pânico. “Eliana… preciso que tu—”
A linha chiou violentamente, cortando as palavras em fragmentos.
“Eliana… é… é—”
Um estouro de estática engoliu a voz dele, depois voltou, crua, desesperada, como se mal se aguentasse.
“-não… esperes—”
E a chamada caiu.
Fiquei a olhar para o ecrã, coração a bater rápido, mãos a tremer ao tentar ligar de novo. Nada. Silêncio.
Algo estava muito, muito errado.
