A Filha do Pastor: Sozinha, Curiosa e Tentada por Pensamentos que Não Deveria Ter” [ parte 1}

A manhã em Maputo estava demasiado silenciosa.A luz do sol passava pelas cortinas finas e espalhava-se pelo chão de azulejos. Lá fora, eu ouvia vozes distantes—crianças a rir, uma mulher a chamar os seus produtos, um chapa a passar na estrada principal. A cidade estava viva. Mas dentro da casa, tudo estava parado.

O pai tinha saído antes do nascer do sol para as orações na igreja. Ouvi o carro dele a ir embora, e depois… nada.O meu irmão mais novo ainda dormia. A casa estava só minha.Nunca tinha estado realmente sozinha assim.

Ser filha de pastor significava viver com regras. Regras sobre como falar, como vestir, como pensar. As pessoas observavam-me. Os membros da igreja observavam-me. Os vizinhos observavam-me. Mesmo quando ninguém estava, sentia que estava a ser observada.Mas esta manhã parecia diferente.

Andei pela sala com o meu roupão. Os azulejos estavam frios debaixo dos meus pés. A brisa entrava pela janela aberta e tocava a minha pele. As fotos da família olhavam para mim da parede. A Bíblia do pai estava na prateleira, pesada e séria.

Por um momento, senti-me nua. Não de corpo, mas de pensamento.

Tentei manter-me ocupada. Dobrei a roupa devagar, alisando cada camisa e vestido. Tirei o pó das prateleiras. Lavei os copos de ontem à noite. Movia-me como quem precisava de fazer qualquer coisa para a mente não divagar.

Mas a minha mente divagava na mesma.

A casa estava tão silenciosa que cada som pequeno parecia enorme. O tic-tac do relógio. O zumbido do frigorífico. O vento a mexer a mangueira lá fora. Até a minha própria respiração parecia alta demais.

Fui à janela e olhei para fora. As folhas da mangueira moviam-se devagar. Um rapaz corria atrás de uma bola na rua. A vida parecia normal. Simples. Mas dentro de mim, algo estava diferente.

Percebi como o roupão tocava a minha pele. Como o meu peito subia e descia. Como o meu coração disparava só por saber que estava sozinha.

Sussurrei para mim mesma: “Meninas boas não pensam assim.”

A voz do pai vivia na minha cabeça. Os sermões sobre disciplina. Sobre pureza. Sobre tentação. Eu acreditava nele. Seguia tudo.

Mas hoje, os meus pensamentos eram mais altos que a voz dele.

Fechei os olhos e tentei rezar. Tentei afastar os sentimentos. Mas quanto mais tentava, mais fortes eles se tornavam. O silêncio parecia perigoso, como se me estivesse a convidar a pensar coisas que nunca permiti.

Abracei os joelhos no sofá. As minhas mãos estavam quentes. O meu corpo estava demasiado desperto.

Pensei em fazer algo que não devia. Algo privado. Algo que só eu saberia. O pensamento assustou-me. Mas também fez o meu estômago tremer.

Disse a mim mesma que ainda era a boa rapariga. A filha do pastor. O exemplo. Mas sentada sozinha naquela casa silenciosa, senti essa imagem a rachar.

Fui para a cozinha fazer chá. Os meus movimentos eram lentos, quase cuidadosos. Enchi a chaleira e vi a água aquecer. O cheiro do chá Rooibos encheu a sala. Quando o verti na minha chávena, o vapor tocou o meu rosto e fez-me sentir estranhamente frágil.

Sentei-me à mesa e segurei a chávena com as duas mãos. O calor espalhou-se pelo peito e pelos braços. Nunca tinha reparado numa coisa tão simples com tanta intensidade.

Os meus olhos foram para as fotos na parede. Eu aos dez anos, ao lado do pai em frente à igreja. Sorridente. Obediente. Pura.

E depois havia eu agora. Sozinha. A pensar pensamentos que nunca tinha ousado pensar.

Senti um pequeno arrepio.

Quis rezar outra vez. Quis fechar os olhos e voltar a ser quem eu costumava ser. Mas o meu corpo estava vivo de uma forma que não compreendia. Cada respiração parecia pesada. Cada pequeno movimento parecia importante.

Olhei à volta da casa, reparando em detalhes que tinha ignorado durante anos. A fissura na parede. A perna desigual da mesa. A forma como a luz se movia pelo chão. Parecia que estava a ver a minha casa pela primeira vez.

E sentia que estava a ver-me a mim própria pela primeira vez.

Voltei para o sofá e puxei os joelhos para o peito. O meu roupão escorregou um pouco do ombro, e senti um pequeno arrepio. A minha respiração ficou irregular. Os meus pensamentos tornaram-se mais altos.

A casa estava silenciosa.

Então—

Um som veio da cozinha.

Um pequeno barulho. Um estrondo leve.

O meu coração disparou. Fiquei imóvel.

Olhei para a cozinha, sem me mexer, sem respirar. Estaria alguém lá?

Os sons da cidade continuavam lá fora. O relógio continuava a marcar. O frigorífico zumbia. Mas o barulho na cozinha ficou na minha cabeça.

Talvez fosse o gato.

Talvez o vento tivesse derrubado algo.

Talvez eu tivesse imaginado.

Mas e se eu não estivesse sozinha?

Abracei os joelhos com mais força. As mãos tremiam. O peito estava apertado. A ideia de alguém ouvir a minha respiração, ver-me neste momento, fez a minha pele arder.

Escutei novamente.

Nada.

Mesmo assim, não consegui relaxar.

Senti-me assustada e curiosa ao mesmo tempo. O silêncio. Os pensamentos. O barulho. A sensação de ser observada, mesmo quando não havia ninguém.

E perguntei-me—

Estaria realmente sozinha nesta casa?

E o que aconteceria se não estivesse?

Alguém tem estado a observar-me todo este tempo?

Descobre o que acontece na parte 2

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